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O LIVRO DOS ESPÍRITOS FILOSOFIA ESPIRITUALISTA Allan Kardec |
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LIVRO QUARTO
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VII DURAÇÃO DAS PENAS FUTURAS
1.003. A
duração dos sofrimentos do culpado na vida
futura é arbitrária ou subordinada a alguma
lei?
1.004. O
que determina a duração dos sofrimentos do
culpado?
1.005.
Para o Espírito sofredor o tempo parece tão
longo ou mais curto do que quando estava
encarnado?
1.006. A
duração dos sofrimentos do Espírito pode ser
eterna?
1.007. Há
Espíritos que jamais se arrependem?
1.008. A
duração das penas depende sempre da vontade
do Espírito, não existindo as que lhe são
impostas por um tempo determinado?
1.009. Segundo isso, as penas impostas
jamais seriam eternas?
Empenhai-vos por todos os meios ao vosso alcance no combate para aniquilar a idéia da eternidade das penas, pensamento blasfemo da justiça e da bondade de Deus, a mais fecunda fonte da incredulidade, do materialismo e da indiferença que invadiram as massas, desde que a sua inteligência começou a se desenvolver. O Espírito prestes a se esclarecer ou ainda em vias de o fazer, bem logo compreendeu a monstruosa injustiça. Sua razão a repele e então raramente deixa de confundir numa mesma condenação a pena que o revolta e o Deus a que é atribuída. Disso decorrem os males sem conta que recaíram sobre vós, e para os quais vimos trazer o remédio. A tarefa que vos assinalamos será tanto mais fácil quanto as autoridades em que se apóiam os defensores dessa crença evitaram de se pronunciar de modo formal. Nem os Concílios, nem os Pais da Igreja decidiram de maneira absoluta essa grave questão. Se, de acordo com os próprios evangelistas, tomando-se ao pé da letra as suas palavras alegóricas o Cristo ameaçou os culpados com um fogo que não se extingue, com um fogo eterno, entretanto nada existe nessas palavras que prove tê-los condenado eternamente. Pobres ovelhas desgarradas, sabei ver que o Bom Pastor se aproxima de vós e que longe de querer banir-vos para sempre da sua presença vem ao vosso encontro, para vos reconduzir ao redil. Filhos pródigos, deixai o vosso exílio voluntário. Voltai para a morada paterna: o pai vos abre os braços e está sempre pronto para festejar o vosso retorno à família. LAMENNAIS.
Guerras de palavras! Guerras de palavras! Não tendes feito verter bastante sangue? Será ainda necessário reacender as fogueiras? Discutem-se as expressões: eternidade das penas, eternidade dos castigos. Não sabeis então que aquilo que hoje entendeis por eternidade os antigos não o entendiam da mesma maneira? Que o teólogo consulte as fontes e como todos vós descobrirá que o texto hebraico não dava à palavra o mesmo sentido que os gregos, os latinos e os modernos traduziram por penas sem fim, irremissíveis [63]. A eternidade dos castigos corresponde à eternidade do mal. Sim, enquanto existir o mal entre os homens subsistirão os castigos; é em sentido relativo que se devem interpretar os textos sagrados. A eternidade das penas é portanto relativa e não absoluta. Dia virá em que todos os homens se revestirão, pelo arrependimento, da roupagem da inocência, e nesse dia não haverá mais gemidos nem ranger de dentes. Vossa razão humana é limitada, isto é verdade, mas, tal qual é, representa um presente de Deus e com a ajuda da razão não haverá um só homem de boa-fé que compreenda de outra maneira a eternidade dos castigos. A eternidade dos castigos! Como! Teríamos então de admitir que o mal fosse eterno. Mas só Deus é eterno e não poderia ter criado o mal eterno, pois se assim não fosse teríamos de destituí-lo do mais belo dos seus atributos: o soberano poder, porque deixa de ser soberanamente poderoso o que pode criar um elemento destruidor de suas próprias obras. Humanidade, Humanidade! Não mergulhes mais o teu sombrio olhar nas profundezas da Terra, buscando os castigos. Chora, espera, expia e refugia-te no pensamento de um Deus infinitamente bom, absolutamente poderoso e essencialmente justo. PLATÃO.
Gravitar para a unidade divina, esse é o objetivo da Humanidade. Para atingi-lo, três coisas lhe são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça [64]. Pois bem: em verdade vos digo que mentis a esses princípios fundamentais ao comprometer a idéia de Deus com o exagero de sua severidade, e duplamente a comprometeis, deixando penetrar no Espírito da criatura o pensamento de que ela possui mais clemência; mansuetude, amor e verdadeira justiça do que costumais atribuir ao Ser Infinito. Destruis mesmo a idéia de Inferno, tornando-a ridícula e inadmissível às vossas crenças, como o é para os vossos corações o horrendo espetáculo das execuções, das fogueiras e das torturas da Idade Média. Mas como? É quando a era das represálias cegas já foi superada pelas legislações humanas, que esperais mantê-la numa forma ideal? Oh! Crede-me, crede-me irmãos em Deus e em Jesus Cristo, crede-me ou resignai-vos a deixar perecer nas vossas mãos todos os vossos dogmas, para não permitir a sua alteração, ou então vivificai-os, abrindo-os aos benéficos eflúvios que os bons Espíritos derramam neste momento sobre eles. A idéia do Inferno com suas fornalhas ardentes, com suas caldeiras ferventes pode ser tolerada ou admissível num século mitológico; mas no século dezenove não passa de vão fantasma que serve apenas para amedrontar as criancinhas e no qual estas mesmas já não acreditam, quando se tornam um pouco maiores. Persistindo nessa mitologia apavorante, engendrais a incredulidade, origem de toda a desorganização social: eis por que tremo ao ver toda uma ordem social abalada e a ruir sobre as próprias bases, por falta de sanção penal. Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia da luz, ao trabalho, pois! Não para manter velhas fábulas atualmente desacreditadas, mas para reavivar e revitalizar a verdadeira sanção penal sob formas que correspondam aos vossos costumes, aos vossos sentimentos e às luzes da vossa época.
Quem é, com efeito, o culpado? É aquele que por um extravio, por um falso impulso da alma se afasta do objetivo da Criação, que consiste no culto harmonioso do belo e do bem idealizados pelo arquétipo humano, pelo homem-deus, por Jesus Cristo.
Qual é o castigo? É a conseqüência natural decorrente desse falso impulso; uma quantidade de dores necessárias para fazê-lo aborrecer da sua deformação, pela prova do sofrimento. O castigo é o aguilhão que excita a alma pela amargura a voltar-se para si mesma, a retornar ao caminho da salvação. O objetivo do castigo não é outro senão a reabilitação. Querer que o castigo seja eterno, por uma falta que não é eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.
Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura: pois seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transmigrações e consagrareis, pela razão ligada ao sentimento, a unidade divina. PAULO, O APÓSTOLO.
* * *
[63] Teólogos católicos e protestantes confirmam hoje essa previsão. Leia.se Giovanni Papini: O Diabo, ou Haraldur Nielsson, O Espiritismo e a Igreja. Veja-se nota anterior sobre Teilhard de Chardin. (N. do T.)
[64] Este trecho da comunicação de Paulo lembra as tríades druídicas sobre as quais há interessante estudo de Kardec na Revue Spirite, publicado em separata no folheto Espiritismo: antiguidade, evolução e propagação, do Clube dos Jornalistas Espíritas de S. Paulo. Veja-se ainda o livro de Léon Denis: Le Genie Celtique et le Monde Invisible, edição Jean Meyer. Paris, 1927. (N. do T.)
[65] Ver, na Revista Espírita, as Palestras Familiares de Além-Túmulo. (N. do T.)
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